Disclaimer: Eu sou designer. Não escrevo código e sei muito pouco sobre como lê-lo. No entanto, já trabalhei bastante com sistemas node-based no passado, pelo que o pensamento lógico e debugging é natural para mim.

Uma nova Era chegou, uma tanto positiva, como negativa.

O software de há cinco anos atrás é completamente diferente do software escrito hoje, tanto em termos de estrutura e código, como em utilização. Com a melhoria exponencial da inteligência artificial, entre outras coisas, a vibe-coding tornou-se uma forma viável de qualquer pessoa iniciar um projeto. Designers, salesmen, artistas, mecânicos de carros, qualquer pessoa pode mandar a sua mensagem para dentro do seu modelo favorito e receber de volta código que (na maior parte das vezes) funciona à primeira.

A minha "carreira" de vibe-coding começou em 2022 quando precisava de optimizar o meu trabalho de animação. Utilizando programas como o Adobe After Effects, antigo e por vezes enervante, comecei por pedir ao Gemini para automatizar certas ações através de scripts. Coisas "simples", talvez com 200 linhas de código que me ajudariam a poupar talvez segundos ou minutos por projeto. It's not much, but it's honest work... Se tivesse funcionado.

Eu poderia ter feito as ações que estava a tentar automatizar umas cinquenta vezes no tempo que me demorou a ter um script funcional. Bugs inesperados, botões que não funcionavam, escrever o prompt a tentar dizer ao AI o que é que não funciona, copiar e colar o novo código, enfim.

"Isto nunca vai ser útil, o meu trabalho está seguro" pensei eu. No final, consegui criar uma coleção de scripts funcionais que até hoje utilizo, mas a expressão "Vibe-coding" passou a ser meio-piada para mim.

Isto é, até experimentar Cursor, em 2025. Era tudo o que eu, como designer e preguiçoso, queria. A mesma experiência, falar com o agente e explicar o meu problema e que solução procuro, mas agora o agente podia escrever o código, alterar e criar ficheiros e permitia-me perceber ainda melhor o que estava a ser criado. Foi uma experiência surreal. O meu primeiro pensamento, lógicamente, foi "Agora, qualquer pessoa pode ser um engenheiro informático."... Da mesma forma que agora, qualquer pessoa pode ser fotógrafo ou designer utilizando generative AI, certo?

Esta questão ficou-me na cabeça. Passei algumas semanas a criar uma app nova todos os dias. A criar sites, backends, scripts, experimentar ideias e perceber o melhor workflow, mas a questão estava sempre lá. "Qualquer pessoa pode fazer isto... Porque é que com todas estas ferramentas novas, não vemos uma explosão de novos criativos?"

"Sim, qualquer pessoa pode criar o que quiser. O computador faz tudo por ela, a pessoa só tem que pensar... E querer... E ter vontade de..."

E foi exatamente nessa altura a ficha caiu. "Qualquer" pessoa hoje em dia pode, efetivamente, fazer e tornar-se o que quiser, mas a maior parte das pessoas não passa sequer pela porta inicial. Os seres humanos são seres de hábitos e de comforto, e hoje mais do que nunca, estar comfortável é extremamente fácil. Existem mil e uma aplicações para te deixarem "comfortável", leia-se entretido, para não falar do impacto negativo que isso tem na cognição humano.

Ter hobbies, estar feliz e estar e desligado do circo infinito que são as redes sociais não é lucrativo.

Não é para isso que as apps são feitas. After all, que incentivos haveriam para isso? Que incentivos é que eu tenho para aprender a usar uma máquina fotográfica? Já há tantos fotógrafos. Que incentivo há para aprender a tocar guitarra? Música não dá dinheiro. Que incentivos tenho eu, para criar coisas novas ou úteis?

O incentivo pessoal. Não tenho capital para financiar infraestrutura ou projetos comunitários. O que tenho é tempo, curiosidade e as ferramentas que aprendi a usar. A ironia da coisa é: vivemos na era onde criar é mais acessível do que nunca, mas também na era onde é mais fácil nunca criar nada.

O meu objectivo não é tentar tirar as pessoas do conforto, cada um sabe de si. É simplesmente garantir que, quando alguém decidir dar o primeiro passo, eu possa ajudar, direta ou indiretamente. Sem paywalls, sem complexidade, sem gatekeeping. Se a tecnologia finalmente democratizou a criação, então posso usá-la para criar coisas que facilitem a vida de outras pessoas. Ferramentas open-source, tutoriais, automações. Pequenas soluções para problemas do dia-a-dia.

Não vai mudar o mundo, mas pode poupar tempo a alguém, ou inspirar alguém a criar a sua própria solução. E se ajudar uma pessoa, já valeu a pena.